Alô cinema: os vilões não são heróis.

Nos últimos anos, o cinema tem experimentado uma revolução que vai além da simples inclusão de novas identidades e perspectivas. Percebe-se um movimento crescente de subversão de papéis tradicionais, em que vilões se tornam os protagonistas e as narrativas de heróis ganham novas nuances, está ganhando destaque.

Sobre isso eu gostaria de ponderar...

Uma das manifestações mais notáveis dessa transformação é a troca de heróis masculinos por mulheres e heróis brancos por personagens negros. Essa mudança não só altera a dinâmica de poder dentro das histórias, mas também abre portas para uma reflexão profunda sobre representatividade e a construção de identidades no imaginário coletivo.
 
Historicamente, os vilões no cinema, especialmente os de franquias de super-heróis, foram frequentemente caricaturas malignas, distantes de qualquer justificativa moral. No entanto, a ascensão de filmes que exploram os vilões de forma mais complexa — mostrando suas motivações e traumas — tem sido um reflexo do desejo de dar humanidade aos antagonistas, permitindo que o público se identifique com suas lutas e dilemas. Chega-se ao absurdo de inocentar, muitas vezes, o criminoso em detrimento da vítima. O expectador consegue sentir pena do vilão, entendê-lo, colocar-se em seu lugar, e até mesmo defendê-lo de suas próprias atrocidades. O herói, o moçinho, fica quase ridicularizado.
 
A inversão de papéis, em que vilões se tornam protagonistas, traz uma nova dimensão para as narrativas de heroísmo. Filmes como Joker (2019), Venom (2018) e Cruella (2021) apresentam antagonistas com profundidade emocional, explorando questões como rejeição social, problemas psicológicos e a busca por identidade. Essa mudança não apenas subverte a ideia de que os vilões são simplesmente maus, mas também desafia a tradicional dicotomia entre o bem e o mal. Uma confusão que pode ter sérias conseguências na sociedade, na vida real.
 
Outro aspecto importante dessa transformação cinematográfica é a crescente presença de mulheres em papéis de liderança. Filmes que outrora eram dominados por heróis masculinos estão agora oferecendo protagonismo para mulheres, mostrando sua força, inteligência e complexidade. Exemplos disso são Mad Max: Estrada da Fúria (2015), com a guerreira Imperatriz Furiosa, e Viúva Negra (2021), onde Natasha Romanoff não é apenas uma peça de apoio no universo Marvel, mas a personagem central que redefine seu papel no complexo jogo de poder global.
 
A mudança de foco para heroínas também reflete uma sociedade em que as mulheres estão cada vez mais desafiando normas de gênero. Elas não são mais apresentadas apenas como personagens de apoio ou interesse romântico. Ao contrário, as heroínas modernas são complexas, multifacetadas e, muitas vezes, mais vulneráveis do que seus pares masculinos. Isso se reflete em filmes como Mulher-Maravilha (2017) e Capitã Marvel (2019), onde essas personagens não só enfrentam vilões externos, mas também suas próprias limitações e expectativas impostas pela sociedade.

Filmes de heroínas não são o problema. Que fique bem claro. O problema é filme de herói que é tirado (de alguma forma) do centro das atenções, e coloca-se uma mulher para fazer o protagonismo, dar continuidade à saga. É o caso por exemplo de Thor: Love and Thunder (2022). É como se não tivesse mais enredo, história para contar com o herói. Para ser bom, ser engraçado, ter audiência agora tem que ser mulher no lugar. E é interessante ver que a audiência, o faturamento, a bilheteria não reflete as intenções dos produtores nos expectadores. Numericamente a conta não fecha. Mas por que insistem? Por pura vontade? Pura pressão? Estranho...
 
Outro aspecto que se destaca na reinvenção das narrativas de heróis e vilões é a crescente representação de heróis negros, uma mudança crucial em um meio historicamente dominado por figuras brancas. Problema? Nenhum! É errado até hoje não ter uma diversidade desse perfil de herói. Uma discriminação histórica. O problema é parar de fazer filmes que historicamente são bem quistos pelo público, em detrimento a filmes somente de heróis negros. Não dá pra conciliar? Penso que dê. Filmes como Pantera Negra (2018), estrelado por Chadwick Boseman - que foi muito bom, oferecem uma visão poderosa e multifacetada de um herói negro em um contexto de complexidade política e cultural. T’Challa não é apenas um herói em busca de justiça, mas também um monarca que precisa equilibrar os interesses de seu país, Wakanda, com a responsabilidade de ser um líder global.
 
Ao contrário dos heróis brancos, muitas vezes retratados em um contexto de colonização ou guerra fria, os heróis negros no cinema atual lidam com questões de identidade, pertencimento e resistência cultural. Em filmes como Mulher-Maravilha (2017) e Aves de Rapina (2020), é possível ver a interação entre personagens brancos e negros, o que enriquece a narrativa e coloca em discussão os conflitos raciais dentro e fora da tela.
 
Ao transformar heróis brancos em negros e trocar personagens masculinos por femininas, o cinema amplia seu leque de representações, cria novas possibilidades narrativas. Novos vilões não se limitam a serem apenas antagonistas, mas são construídos como personagens complexos que possuem histórias pessoais, traumas e dilemas morais. Como em O Rei Leão (2019), onde a história de Scar é explorada de forma mais sutil, permitindo que o público compreenda suas frustrações e seu desejo de poder, muitas vezes fruto de uma vida de marginalização e sofrimento. Mas é a tradição da monarquia. O expectador aprende que, na monarquia é assim. Se não gosta, que dispense esse tipo de governo. Mas não enalteça o vilão em detrimento do herói. A mudança para vilões mais humanizados permite que os espectadores confundam os papéis e suas histórias e, em alguns casos, sintam uma certa simpatia pela sua conduta negativa. Problema!!

Os bons pais ensinam a seus filhos que sejam bons, corretos, sinceros, fortes, protetores, gentis, enfim, que tratem o próximo como gostariam que fossem tratados. Aí vem filmes como todos esses citados acima e distorcem toda a eduação que os pais se esforçam para sedimentar no caráter de seus filhos ao longo de anos? Pra que lado vai a sociedade? Como esses produtores querem ser bem vistos com essas narrativas?
 
O cinema atual é um reflexo das mudanças culturais e sociais que acontecem no mundo. Uma mudança perigosamente distorcida. A troca de papéis entre heróis e vilões, a representação de heróis negros e a ascensão de mulheres no centro das histórias de poder são apenas alguns exemplos dessa transformação. Ao subverter as expectativas e reimaginar as figuras de poder, o cinema contemporâneo está causando uma disruptura de conceitos. Torna talvez o mundo mais inclusivo, onde a diversidade e a complexidade das identidades humanas são celebradas, sim. Mas a linha entre o certo e o errado, o bem e o mal não deve ser rompida.
 
Esses filmes não são apenas uma mudança de gênero ou etnia. Temos uma oportunidade de repensar os valores que moldam as histórias. Temos que lembrar sempre de nossos conceitos, sermos críticos, refletir sobre a mensagem passada nas telas. Que o cinema não deixe de ser o entretenimento historicamente buscado. Que não se torne (e está quase batido nesse tema) uma arma de influencia social, uma ferramente de manipulação mental.

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